4/29/2012

REDE


Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea


Se existe o Dia Mundial da Dança é porque, mundialmente, a sua importância já foi reconhecida.

A dança sempre dialogou e se ladeou de outras formas de expressão artística acompanhando o pensamento e os movimentos de vanguarda.

A dança sempre teve a coragem de experienciar a teoria, de reconhecer filosofia no corpo, de encarnar pensamentos e de manifestar fisicamente aquilo que alguns apenas pensam.
Esta é a sua maior força e o seu maior obstáculo, tornar ideias realidade, num momento presencial, de exposição. Esta é também a sua essência política, ser linguagem e ser acção.

A dança em Portugal tem-se desenvolvido autonomamente, integrando a educação, a formação, a teorização e a criação de uma comunidade sólida que sabe o que procura e que sabe o que precisa. Uma comunidade politicamente madura que nunca se eximiu a completar aspectos fundamentais esquecidos ou ignorados pela iniciativa estatal e de criar um papel fundamental nas sociedades onde se insere.

A dança portuguesa conseguiu nos últimos 20 anos ganhar relevância no panorama nacional e internacional principalmente pela sua capacidade de se manter à cabeça da vanguarda europeia.

Pretendemos manter o que acreditamos ser a vocação artística na procura de linguagens próprias, de verdadeira inovação, no sentido de enveredar por caminhos ainda desconhecidos e por isso rejeitamos políticas culturais que demonstrem estratégias de dominar os seus processos, conteúdos e pluralidade limitando a diversidade de discursos e pensamentos.

A dança depende de uma comunidade saudável de artistas que possa continuar a explorar e a defendê-la dentro de uma sociedade que a legitime e  reconheça.

Uma sociedade minada pela desconfiança entre artistas, opinião pública e estado é uma sociedade dilacerada, fragmentada, sem força identitária  e sem força criativa.

Achamos perigoso que se substitua uma política cultural que, numa democracia, requer um profundo conhecimento do sector e diálogo com os seus principais agentes, por um programa de gestão alheio às suas reais necessidades.

A instrumentalização da arte é necessariamente um contra-senso, se esta deixa de ser livre deixa também de ser arte.

De uma vez por todas é preciso ter em mente que são os artistas contemporâneos que, em cada momento na vida das sociedades, constroem o património cultural do futuro.

É fundamental que os nossos dirigentes mudem de atitude face ao orçamento para a cultura: trata-se de um investimento de maior importância e não de um simples e evitável gasto.

Pode-se reduzir o movimento a uma equação matemática. Pode-se não reduzir o movimento a uma equação matemática.

Citando Susan Sontag: Uma obra de arte não é apenas sobre qualquer coisa; é qualquer coisa. Uma obra de arte é uma coisa do mundo, não apenas um texto ou um comentário sobre o mundo.

4/02/2012

PONTO AMARELO EM FUNDO NEGRO (COM OBSERVADOR), de Andreas Dyrdal

Auditório Balleteatro do Porto

 

13 de Abril 

21h30 

 Fotografia de Edgar Tavares

 

Ao criar uma obra de arte, envolvemo-nos essencialmente com processos que são destilações, complicações e substrações pessoais de contextos mais alargados, próprios de um determinado momento no tempo; ou, sucintamente,  decidimos o que incluir ou o que excluir de modo a justificar (para nós próprios) a existência da obra num determinado momento de uma janela temporal pessoal. 

Quando a obra é mostrada, encontramo-nos na situação de ser interpretados por indivíduos ou por grupos de pessoas; ser-nos-ão atribuídos significados, opiniões, emoções e formas que não são, necessariamente nossas. Algures entre estes estados (a criação e o consumo) reside, para mim a mudança, a mudança contextual.

O momento de mudança é o que me interessa, o momento em que algo pessoal se transforma em algo público e vice versa; o momento, quando o pessoal ou colectivo, está prestes a surgir em nós, ou a deixar de existir, devido a reorganizações de contexto pessoais ou colectivas .
Quero encontrar essa aresta, essa linha, e/ou esse equilíbrio, e criar, a partir daí, a possibilidade de me envolver com o momento de mudança a partir do interior. Envolver-me com a produção que constantemente pode surgir, e questionar o problema do consumo.

Perguntar o que motiva o quê numa obra?
A pessoa de um intérprete ou o entendimento colectivo?
Onde colocar a linha entre o pessoal e o colectivo?
Entre intérprete e público? Entre a obra e o exterior?
E perguntar o que acontece quando as coisas mudam?, quando a mudança se torna um fim em si mesma e não um resultado da produção.

Andreas Dyrdal
Setembro 2011


Concepção, direção e coreografia | Andreas Dyrdal
Interpretação e criação | Susana Otero, Sara Leite, Rui Marques e Flávio Rodrigues
Texto | Susana Otero, Sara Leite, Rui Marques e Flávio Rodrigues
Desenho de Luz | João Teixeira
Figurinos | Andreas Dyrdal
Produção | BCN









A NOTÍCIA DA MINHA MORTE FOI UM EXAGERO de Susana Otero

Dia 14 de Abril 

21h30



 Fotografia de Andreas Dyrdal

 

A frase, justamente adoptada como título deste primeiro trabalho de longa duração de Susana Otero, foi proferida por um jornalista quando entrevistado após ter sido largamente noticiada a sua morte...

Partindo de textos de José Cardoso Pires, De Profundis - Valsa Lenta, a qual foi escrita depois do seu autor ter sofrido um acidente vascular cerebral que o privou da memória entre outros problemas, e de Fumar ao espelho, um monólogo de caracter autobiográfico, Susana Otero faz um exercício cheio de ironia,  reflectindo sobre a vida e a morte – a morte branca como lhe chama José Cardoso Pires, e a outra, bem mais negra e mais abrangente -, e sobre a própria dança contemporânea e o seu poder enquanto arte performativa.
Sempre com um cuidado cheio de ternura pelas «criaturas» que põe em cena, Susana Otero faz apelo a uma empatia e cumplicidade por parte do público; o qual está, face a este espectáculo, como quem se expõe ao sol, gozando o seu calor aprazível ou sofrendo as queimaduras dos seus raios mais fortes.

Em palco dois homens e uma mulher, perdidos como só Godot à espera de si próprio (a referência Beckettiana faz aqui todo o sentido) o espectáculo desenrola-se entre a palavra - esse movimento da voz –, e a dança – essa voz do corpo -, entrelaçando-se, sem nunca se atropelarem nem invadirem, com um à vontade  alheio a quaisquer dogmas de cruzamento interdisciplinar ou a fenómenos de moda nos processos criativos, ilustrando, bem, o melhor de um certo exercício da contemporaneidade.

«E agora José?
...Você marcha José!
José, para onde?»

«José, ao espelho, encolhe os ombros.»

BCN, 2011


Concepção, direcção e coreografia | Susana Otero
Interpretação e criação | Sara Leite, Rui Marques e Flávio Rodrigues 
Música | Quarteto Dissonante, W. A. Mozart
Desenho de luz | João teixeira
Figurinos | Susana Otero /Luis Carolino
Produção | BCN

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