5/24/2016

ARTISTA ASSOCIADO | ROGÉRIO NUNO COSTA | THE TEMPEST



THE TEMPEST™, amusement park

[Exercício resultante do Laboratório orientado por Rogério Nuno Costa em colaboração com os alunos do 2.º ano do curso de Teatro da Universidade do Minho, Guimarães]
8 de junho | 21h | mala voadora.Porto
Rua do Almada, 277


Transformar um clássico da literatura dramática numa experiência lúdica é quase a mesma coisa que filmar uma tempestade num copo d’água (de plástico, preferencialmente) e depois ampliar o resultado na tela do cinema. Este filme — que é de época porque acontece no futuro condicional — apresenta assim um problema de escala na forma de parque temático: todos os espetáculos são sempre sobre qualquer coisa, logo, não existe qualquer diferença epistemológica entre Arte e Entretenimento: indie e pop, juntos, perfazem agora um género só. 17 alunos de Teatro, em evidente crise de identidade (sexual e social), regressam à Ilha jurássica de Próspero como quem regressa-às-jaulas, cumprindo o dress code, decorando todas as senhas de acesso, e entregando-se à tarefa pré-dramática de des-aprisionar a História do âmbar — para mais tarde recordar. Dizem: “Fazer espetáculos (atuais) é tão 1616...”. É que a História, sobretudo a do Teatro, é como a memória da água nos medicamentos homeopáticos, ou seja, sofre de Alzheimer. Mas ao contrário: quatrocentos anos depois e ainda não nos esquecemos que o Shakespeare morreu! Porque não há maneira de lutar contra o sistema (o do tempo e os outros), entremos então no parque (humano) de todas as manobras de diversão e de todas as encenações de liberdade. Nada mais nos resta senão honrar a racionalidade de Próspero, abandonar o a-narrativo, o demencial e todo o rococó contemporâneo, e entender que a melhor história a ser contada é a História ela própria.

Interpretação & Co-criação | Ana Brandão, Ana Leite, Bárbara Figueiredo, Carolina Sá, Catarina Carvalho, Cidália Carvalho, Diogo Carvalho, Inês Serôdio, Lúcia Lopes, Miguel Loureiro, Sabrina Rebelo, Zacarias Gomes
Participação Especial | Francesca Rayner
Assistência de Encenação | Sílvia Almeida
Cenografia: Eva Ribeiro | Desenho de Luz: Mariana Dixe (sob tutoria de Diogo Mendes)
Figurinos: Eva Ribeiro (sob tutoria de Jordann Santos)
Fotografia Promocional & de Cena: Xana Novais
Vídeo Promocional | Shahin Rahmani
Direção de Produção | Gabriela Anderson
Produção Executiva | Mariana Dixe, Sílvia Almeida
“Welcome To The Tempest™, Amusement Park” original opening sequence composed by Gerald Kurdian  Apoio: Mala Voadora 

5/17/2016

MUTE | COREOGRAFIA DE SUSANA OTERO


MUTE
Antestreia
19 maio
21h45
Mercado Municipal 
Santa Maria da Feira
Imaginarias | Festival Internacional de Teatro de Rua 2016

ARTISTA ASSOCIADO | DINIS MACHADO | CYBORG SUNDAY

                   Cartaz Sílvia Prudêncio

Apresentação única em Lisboa de Cyborg Sunday de Dinis Machado, após ante-estreia no Porto e estreia em Estocolmo.


NEGÓCIO, ZDB 

Quarta, 18 de Maio às 21h30 
+ info: https://goo.gl/j2LcLo
reservas@zedosbois.org


Com um elenco internacional, surgiu como resposta a uma comunidade artística dispersa pela Europa, pelo desenvolvimento da crise económica em Portugal. Dinis Machado imaginou um domingo numa ilha deserta em que uma comunidade está ocupada a criar uma nova realidade para si.

c/ Vicky Malin (UK), Nikolas Kasinos (CY), Goncalo Ferreira (PT), Isadora Monteiro (PT) e Anna Koch (SE)

5/05/2016

MUTE, IMAGINARIUS - FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE RUA 2016



20 e 21 de Maio | 16h00 e 21h45 | Mercado Municipal Santa Maria da Feira – Interior
R. Descobrimentos 7
4520 Santa Maria da Feira

MUTE é um espetáculo intimista, uma experiência sensorial que nos permite transportar para uma realidade sensível próxima ou longínqua do nosso quotidiano. MUTE é uma viagem a um silencio ensurdecedor e desconcertante, que nos desperta para uma questão social. A experiência resultante deste espetáculo permite aproximar a emoção da negação social, abordando um estanho desconforto que nos conduz a uma surdez temporária.


Autoria Daniel Vilar (Imaginarius)
Direção Criativa Bruno Costa e Daniel Vilar (Imaginarius)
Direção Musical David Santos (Noiserv)
Direção de Movimento Susana Otero (Ballet Contemporâneo do Norte)
Assistência à Direção de Movimento Carlos Silva
Desenho de Luz Daniel Oliveira
Figurinos Jordann Santos
Interpretação EREBAS Feira
Produção Marco Santos (Imaginarius
Duração: 25m
coprodução Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua

ATENÇÃO: A lotação é limitada 50 lugares.
+ info http://www.imaginarius.pt/index.php?pg=companhia-desc&id=148


5/04/2016

ARTISTA ASSOCIADO | DINIS MACHADO | PARADIGMA E CYBORG SUNDAY

CYBORG SUNDAY

18 maio | 21h30 | ZDB

Rua da Barroca, no59
1200-049 Lisboa Portugal
t. + 351 213 430 205
zdb[@]zedosbois[.]org
reservas[@]zedosbois[.]org 


+

CYBORG SUNDAY e PARADIGMA
20 e 21 maio | 20h | Chelsea Theatre, UK
7 World’s End Place
King’s Road, London SW10 0DR
admin@chelseatheatre.org.uk


+
PARADIGMA
25 maio | 20h | Colchester Arts Center, UK
Church Street
Colchester
Essex
CO1 1NF
info@colchesterartscentre.com


CYBORG SUNDAY

uma performance de Dinis Machado
Intérpretes Anna KochGonçalo Ferreira, Isadora Monteiro, Nikolas Kasinos and Vicky Malin.
com a colaboração de Catherine Long
e com Pedro Machado como outside eye
'Cyborg Sunday' de Dinis Machado começa com cinco performers a recordar em voz alta uma história que ainda vai acontecer. A história, sobre um dia na vida de um grupo de pessoas que vivem juntas em harmonia, é contada através das impressões dos intérpretes, pelas suas recordações filtradas e sensibilidades individuais.
Enquanto se esforçam por lembrar com exactidão as suas memórias, desencadeiam sensações físicas que vão mudando de forma, embora prosseguindo com a sua intenção. Lentamente, as suas acções vão ficando mais fragmentadas, perdendo não só significado, mas também substância física. No entanto, isso não é o caos, nem corresponde a liberdade total. Em vez disso, tudo é ultra considerado e à medida que as suas máscaras sociais caem somos guiados para um mundo imaginário rico, algo com tanto de pessoal como de efémero. Mesmo quando experimentam os cabelos uns dos outros, a mais prática e mundana das suas acções, isto é realizado não para causar efeito ou impacto, mas simplesmente porque podem fazê-lo. Podem ser os outros sem deixarem de ser eles próprios, apesar de tudo, a realidade parece ser a ficção que criam e partilham, têm isso sob controle. Com o desenrolar da história, os personagens convivem intimamente. Eles dormem, cozinham e comem e filmam-se a ter sexo, enquanto o movimento dos performers se torna cada vez mais ténue, de modo a que até mesmo referências directas, a um hambúrguer, por exemplo, perdem o seu impacto literal, talvez os movimentos estejam, também, a ser ‘desmascarados’. A única coisa que parece importar é a forma como os diferentes elementos do elenco se lembram e se relacionam com a história, a sua perspectiva pessoal unida por uma referência externa. Se a história é a moldura da peça, são os performers que mantêm tudo em conjunto através das possíveis representações, que nunca chegam a acontecer.
'Cyborg Sunday’ funciona como um labirinto sedutor onde o fio de Ariadne nos leva não para a saída, mas para um mundo denso e intangível, profundamente interior.  [Pedro Machado]
Residências ImPulsTanz (Vienna), Dance4 (Nottingham), NEC/Câmara Municipal do Porto (Porto) e Weld (Estocolmo)

Coprodução WeldCorp. e Dance4
Apoio de ImPulsTanz > Life Long Burning apoiado por Culture 2013-2018 Programme of the European Union
Developed with the grant for the arts from the Arts Council England
Circulação em coprodução com Weld e o apoio internacional da Fundação Calouste Gulbenkian
Dinis Machado é um artista associado do
Ballet Contemporâneo do Norte (PT) e Weld (SE)

























PARADIGMA

“Um ritual é uma sequência de atividades que envolvem gestos, palavras e objetos, praticado num lugar isolado e de acordo com uma sequência definida.”
[Dicionário Merriam-Webster]
Em “Paradigma”, criamos um folklore DIY para corpos com identidades esbatidas, através de artefactos, narrativas, danças, rituais e músicas. Paradigma é uma dança de um exotismo de lado nenhum. Um reclamar ritualista de diferença e cidadania. Uma paisagem criada de um cadavre esquis de referências paradoxais vindas de lugares faccionais. Uma cerimónia vinda de um tempo antes da divisão entre arquiteto e construtor onde se produzem símbolos abstratos com materiais complexos e uma engenharia caseira.

Música Original de
Hanna Kangassalo (SE/FI), Robert Tenevall (SE), Erik Sjölin (SE)
com vozes adicionais de Lillemor Tenevall, Kai Kangassalo, Gonçalo Ferreira, Britta Amft, Dinis Machado
Cenário, luz e figurinos
Dinis Machado (SE/PT)
Consultoria
Pedro Machado (BR/UK), Gonçalo Ferreira (PT), Jorge Gonçalves (DE/PT)
Produzido por Corp. (PT) e Ballet Contemporâneo do Norte (PT),
com o Produtor Associado Clair Hicks (UK)
e administração de Interim Kultur (SE)
Co-Produção
Weld (Stockholm/SE), Teatro Municipal do Porto (Porto/PT), Dance4 (Nottingham / UK) and Gothenburg Dans & Teater Festival (Gothenburg/SE)
Criado em residência em
Weld (Stockholm/SE), MARC (Kivik/SE), Campo Alegre Teatro Municipal (Porto/PT), Alkantara (Lisboa/PT), ​Gothenburg Dans & Teater Festival + Vitlycke Centre for Performing Art (Gothenburg/SE), Devir/Capa (Faro/PT), Dance4 + Lace Market Gallery (Nottingham/UK)
Com o apoio de
Konstnärsnämnden (SE), Kulturrådet (SE), Arts Council England (UK) and DGArtes/Secretaria de Estado da Cultura (PT)
Dinis Machado é um artista associado do
Ballet Contemporâneo do Norte (PT) e Weld (SE)

IN A MANNER OF SPEAKING | DINIS MACHADO | RESIDÊNCIA


Mais uma semana de trabalho do In a Manner of Speaking de Dinis Machado para o Ballet Contemporâneo do Norte. 
Com Susana Otero, Mariana Tengner Barros, Filipe Pereira e Jorge Gonçalves. 

ESTREIA

29 de outubro 2016
Cineteatro António Lamoso

5/03/2016

PARA VER | DOCUMENTÁRIO | CONSTRUÇÃO



Três anos depois recordamos e mostramos ao público o documentário do espetáculo A Construção de Pedro Rosa para o Ballet Contemporâneo do Norte.
 
Quantas pessoas são precisas para construir uma ideia? Para dar significado às coisas que vamos diariamente construindo?
Esta construção surge do nada. Surge da vontade de criar e dar significado a uma ideia, à ideia de construir um espaço que todos abrigue. Centro de inquietações e projeções de um futuro próximo. Construído por pessoas invulgares, projetado por pessoas invulgares, e percepcionado por outras igualmente invulgares. Construímos uma ideia de que é possível construir, continuar, num movimento perpétuo circular.
Para concretizar este objetivo, foi escolhido um grupo de reclusas do estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, que integrou o elenco desta nova criação intitulada A Construção.

Encenação e composição | Pedro Rosa
Cenografia, direção do atelier de construção | João Pedro Rodrigues
Coreografia, direcção do atelier de movimento | Flávio Rodrigues
Interpretação | reclusas do estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo
Realização, Imagem e Edição | Nelson Castro e Sofia Afonso
Desenho de luz | João Teixeira
Pós-produção áudio e composição musical | Carlos Salgueiros
Coordenação geral | Susana Otero
Assistente de coordenação geral | Luís Carolino
Produção | BCN
Co-Produção | Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua

4/30/2016

de Rogério Nuno Costa para REPERTÓRIO PARA CADEIRAS FIGURANTES E FIGURINOS de Miguel Pereira | ANIVERSÁRIO 21 ANOS BALLET CONTEMPORÂNEO DO NORTE

Uma arqueologia a-temporal (e incidental) de factos/ficções para ver Repertório para cadeiras, figurantes e figurinos, um espetáculo de Miguel Pereira para o Ballet Contemporâneo do Norte


Se está a ler este texto, assuma que na verdade já o leu. Ou se decidir parar para ler mais tarde (por exemplo: depois do espetáculo), assuma que essa sua projeção futura está na verdade a acontecer no dia 29 de Abril de 1995, ou então 2015, ou então amanhã, em 2025, em 5225, ou há 2525252525 anos atrás. Já sabemos que não houve Big Bang nenhum. A inexistência de um qualquer Início inaugural leva à consequente invalidação de toda e qualquer ideia de Fim. Vamos então impor, aqui, neste texto, uma nova temporalidade, uma historiografia transformada em historiologia, ou uma gramática do infinito. Para uma ciência (exata!) das especulações, e para uma elaboração trans-histórica à volta de um espetáculo, dos seus criadores e dos seus espetadores. A viagem será vertiginosa; aconselhamos alguma calma... Lembre-se que pode sempre parar, conquanto tenha uma cadeira perto de si onde possa sentar-se e observar a sua própria respiração. Não queira procurar no texto explicações para o espetáculo que vai/está a ver, nem tão pouco uma verificação das suas especificades técnicas. O texto é uma emanação do espetáculo e projeta-se em várias direções temporais e emocionais: para trás dele, para a frente dele, para dentro dele. Mas não por causa dele. Quando deixa de haver “história” (a palavra e também a disciplina), omite-se a consequencialidade: passado, presente e futuro condensados num só prisma arquitetural. Entendamos, então, que nunca viajámos no espaço, mas sim no tempo; e que este é circular, circulatório e circunscrito. Ou seja, infinito. Tal como este texto. Mas não se deixe enganar! O espetáculo que vai/está a ver não é do Agora, esse chavão formal inventado à pressa pela Taschen para vender resumos Europa-América... O espetáculo que vai/está a ver é do regime do Depois. Não começa, logo, não acaba, resistindo num sempiterno a-pós, num incomensurável e fatídico a-seguir... Entrar nesta realidade matricial implica termos que desapertar o cinto da convenção, parar o relógio, ficar à espera que a hora marcada volte a ser verdade, para então abraçarmos definitivamente a nossa condição de figurantes/figurinos sentados, em pano de fundo, a assistir à mesma tragédia de sempre. Os espetáculos são todos iguais. Todos. Só muda o foco. Assumamos então este texto, caro leitor, como uma lente progressiva, não para ver melhor, nem sequer para ver mais, mas para ver depois. No texto, e também no espetáculo, se condensa(rá) tudo aquilo que já aconteceu e tudo aquilo que vai acontecer. Por serem desprovidos dos erros associados ao destino biológico — o texto é uma folha de papel com um prazo de validade muito superior ao da pessoa que o segura; o espetáculo é uma realidade imaterial, logo, sem tempo —, ambos se apresentarão em permanente curto-circuito lógico, revendo infinitamente as milhares de hipóteses de futuros e de passados possíveis.

Post hoc ergo propter hoc.

Por (já) não haver qualquer diferença epistemológica entre realidade e ficção, queremos então convidá-lo a participar desta nossa arqueologia de descobertas que são invenções, e de invenções que são descobertas, e assim sucessivamente... Repito: não se deixe enganar! É tudo verdade, aqui e no palco! Qualquer semelhança da cronologia do texto com a do espetáculo terá sido pura coincidência. Ou não... Caberá a si apontar a agulha para um, para o outro, ou para os dois ao mesmo tempo. É no Norte que deverá encontrar a chave para a decifração do momento.

Rogério Nuno Costa
(his)STORY


Entre 4.1 a 3.9 biliões de anos atrás
Após o bombardeamento de meteoritos que deu origem à Lua e que terá, segundo os especialistas da altura, erradicado da face da Terra todas as formas primordiais de Vida, essa mesma Vida renasce 300 milhões de anos depois, ou seja, no dia seguinte, exatamente do mesmo ponto onde tinha terminado. Os especialistas da altura definem este momento como o início da Contemporaneidade.

65 milhões de anos atrás
Um novo cataclismo tragicómico faz desaparecer os dinossauros da face da Terra, assim como 50% de todas as restantes formas de vida. Os outros 50%, por não saberem que são metade de algo que já não é, acreditam ser donos do seu próprio destino. Nasce a primeira teoria da conspiração, que os especialistas da altura designam por Arte.

1.9 milhões de anos atrás
Um homem põe-se em bicos de pés, levanta os braços no ar, consegue ficar erectus durante uns breves segundos, suficientes porém para conseguir chegar a uma árvore com maçãs. Nasce o Ballet.

1.9 milhões de anos atrás (+ 1 dia)
O mesmo homem regressa à árvore para apanhar outra maçã, repetindo exatamente os mesmos movimentos. Um segundo homem senta-se numa pedra e fica a observar. Nasce o Teatro.

Entre 100 a 500 mil anos atrás
Um homem cobre-se de pele de antílope e sai para ir caçar. Por se parecer com um antílope, atrai outros antílopes. Não só caça mais, como também é caçado. Nasce a roupa. No dia seguinte, outro homem aproveita-se da desgraça do homem morto e rouba-lhe a pele de antílope para assim poder reproduzir tecnicamente o seu sucesso. Nasce o figurino.

20 mil anos atrás
Com a ajuda de pigmentos naturais, um homem imprime a marca da sua mão numa gruta em Lascaux (atual França), colocando a seguinte legenda: “Se eu não partilhar isto no meu mural, é porque nunca aconteceu”. Nasce a História.

±1000 a.C.
Alguém, ao ser questionado sobre a existência de um deus omnipotente, omnipresente e onnisciente, leva o dedo indicador à língua, molha-o com saliva e aponta-o aleatoriamente para cima da cabeça. Nasce a noção ocidental de Norte.

700 a.C.
Hesíodo escreve sobre si próprio e chama a isso História. Nasce a Arte Conceptual.

495 a.C.
Poucas horas antes de morrer, Pitágoras afirma que o número 1 não existe, provocando uma disrupção cósmica e um rasgo incidental na linha do espaço/tempo. Desse cataclismo emana o conceito contemporâneo de “linha morta”, em Lingua Franca: deadline.

450 a.C.
Heródoto de Halicarnasso escreve as suas Histórias. Autores contemporâneos detetam no texto vários plágios, mas porque ainda não existia o conceito de copyright e a Justiça™ distinguia futurologia de passadologia, Heródoto é aclamado o pai da História. Da disciplina, não da palavra.
347 a.C.
Platão revela aos Atenienses que o Início é a parte mais importante de qualquer trabalho. Morre logo a seguir.

0
Nasce Jesus Cristo. Para comemorar, imprime-se o primeiro calendário e o Mundo começa a avançar numa só direção.

Entre os séculos V e XIV d.C
Hiato a-temporal que os especialistas definem por “trevas”, espaço privilegiado para a efabulação fetichista da ficção contemporânea. Datam deste período as primeiras reconstituições históricas e os primeiros cursos práticos de Mimésis (aka Histórias para Pessoas Mimadas).

1492
Cristóvão Colombo inventa a América e Guy Debord começa imediatamente a escrever a Sociedade do Espetáculo.

Século XVI
As “trevas” terminam não com o início da Renascença, mas com a vulgarização da cadeira como assento privilegiado para os momentos de paragem higiénica. Todos os atos e ações quotidianos passam a ser observados de uma zona de conforto. Desenham-se roupas especiais para vestir nesses momentos. Nascem as primeiras cátedras em Estudos de Performance.

1637
Devido a um entrelaçamento quântico do mundo ocidental com o mundo oriental, o espaço é agora cartesiano. O tempo também. Schrödinger, de passagem trans-dimensional por estas bandas, escreve a seguinte anedota: “O tempo perguntou ao espaço quanto tempo o espaço tem. O espaço respondeu ao tempo que o tempo tem tanto espaço quanto espaço o tempo tem.”

1661
Luís XIV funda a Académie Royale de Danse. O Ballet passa a designar-se por dança comunitária. Não fosse a sua migração Contemporânea para o Norte, e ter-se-ia extinguido.

1752
Diderot, na sua Encyclopédie, escreve sobre a cadeira. Assim: “S.f. (Art mécanique) espèce de meuble sur lequel on s'assied.”

1818
Mary Shelley publica a obra-prima Frankenstein, um tratado filosófico onde o conceito de mashup é pela primeira vez definido e sistematizado.

1847
A palavra francesa répertoire é usada pela primeira vez para se referir a um conjunto de peças que uma companhia ou um intérprete sabe ou se encontra preparado para executar. Vem do Latim repertorium, que significa catálogo ou inventário. As companhias de dança passam a ser dirigidas por Diretores de Marketing.

1853
Estreia a ópera La Traviata de Giuseppe Verdi, a primeira stock opera da história, re-utilizada massivamente em anúncios publicitários, cerimónias inaugurais, comícios políticos, cenas heróicas de filmes de Hollywood, vídeos de apanhados no Youtube e espetáculos de dança-teatro com forte carga emocional.



1863
Acontece o primeiro Salon des Réfusés, em Paris.

1905
Albert Eisntein publica Zur Elektrodynamik bewegter Körper ("On the Electrodynamics of Moving Bodies”). Quase ao mesmo tempo, Vaslav Nijinski, então com 15 anos, recebe a sua primeira standing ovation após um incrível salto em suspensão durante uma apresentação escolar ao som de In A Persian Market.

1916
Em Zurique, vários artistas Dada anunciam um grande espetáculo, com data e local marcados. Chegado o dia, o público aparece, mas nada acontece. Um ano depois nascem Miguel Pereira, Susana Otero, Joclécio Azevedo e Rogério Nuno Costa, quase ao mesmo tempo. Crê-se que esse ano inaugural seja a Fonte donde nascem todos os artistas que se encontram vivos em 2016.

1919
Marcel Duchamp escreve L.H.O.O.Q. em cima de uma reprodução da Mona Lisa. Nasce a primeira folha de sala da história.

1928
Alexander Fleming esquece-se do relógio no seu laboratório de experiências químicas. Quando regressa das férias, descobre a vacina contra a linearidade narrativa. Num plano paralelo mais ou menos simultâneo, Magritte escreve “ceci n’est pas une pipe” numa tela com o mesmo nome.

1931
Alvar Aalto desenha a icónica cadeira de braços 41 Paimio. Nasce o conceito contemporâneo de retro.

1937
É atribuído o primeiro Óscar para Melhor Ator Secundário pela Academy of Motion Pictures Arts and Sciences. Surge o conceito contemporâneo de “artista emergente”.

1943-47
Na Suécia, O IKEA comercializa as primeiras cadeiras ergonómicas com materiais leves e baratos. Quatro anos depois, a poucos quilómetros de distância, a H&M comercializa as primeiras t-shirts básicas que dão com tudo. Ainda se enterram os corpos do Holocausto, mas no Norte (o da Europa e o da América) já se fala à boca cheia de do-it-yourself.

1949
Inspirado pela figura de Joseph Stalin, que mandava editar fotografias suas de forma a eliminar pessoas desnecessárias (inimigos, defuntos, etc.), George Orwell escreve o manual de instruções 1984, prevendo importantes vanguardas estéticas contemporâneas, como o Photoshop.

1952
Ionesco publica "As Cadeiras", uma peça de teatro sobre cadeiras. A invisibilidade passa a ser o tema-fetiche de todas as artes e de todos os ofícios.

1968
Ao terceiro dia do mês de Agosto, Salazar cai de uma cadeira.

1973
Andy Warhol transforma Mao Tsé-Tung num ícone pop: colorido, massivo e reprodutível.


1974
No dia 6 de Abril, em Brighton, o grupo musical Abba, representando a Suécia, ganha o Festival Eurovisão da Canção com “Waterloo”, uma música disco que fala sobre rendição. Dezanove dias depois, em Portugal, a cadeira rende-se à decrepitude e cai em cima dela própria.

1978
Pina Bausch estreia a peça-ícone Café Müller. É sobre cadeiras.

1983
Na mesma latitude geográfica, logo estética, Anne Theresa de Keersmaker apresenta Rosas danst Rosas. Também é sobre cadeiras.

1989
A 9 de Novembro, em Berlim, cai a maior cadeira do Mundo. Deixa de fazer qualquer sentido escrever coisas como “é sobre...”.

1990
António Pinto Ribeiro publica a obra Por exemplo a cadeira. Ensaio sobre as artes do corpo. “As cadeiras definem o homem como ser que, em determinados momentos do seu percurso histórico, necessita de conter a energia das ações e dos movimentos para pensar essa mesma energia”. Descartes e Einstein andam à chapada no túmulo.

1991
Após visitar as grutas de Lascaux, Donna Haraway escreve, com 20 mil anos de atraso, o Manifesto Cyborg. O Mundo inteiro (Portugal incluído) senta-se numa cadeira e pára para pensar. Hashtags: anos90, novadança, crisedaoriginalidade. Vera Mantero levanta-se da cadeira e diz: talvez ela pudesse dançar primeiro e pensar depois. Descartes e Einstein fazem as pazes.

1993
A European Organization for Nuclear Research (CERN) coloca o software da World Wide Web no domínio público. O primeiro site disponibilizado na World Wide Web é sobre a World Wide Web. A banda holandesa 2 Unlimited lança o hit No Limit, cantando “no no limits, won’t give up the fight, we do what we want, and we do it with pride”, obra seminal do último movimento artístico 100% europeu: o eurodance.

1995
Nasce, no dia 29 de Abril, o Ballet Contemporâneo do Norte. Traduzido livremente a partir da Novilíngua, o nome significa qualquer coisa como: sistema (ballet) infinitamente (contemporâneo) imaterial (do Norte).

1998
Elisa Worm cria a primeira peça para o Ballet Contemporâneo do Norte e chama-lhe A Última Dança. O fim passa a ser o tema-fetiche de todas as artes e de todos os ofícios.

1999
Na Holanda, nasce o programa de televisão Big Brother, um tutorial pré-apocalíptico d’après Orwell para as pessoas aprenderem a (sobre)viver: todas as coisas passam a ser sobre elas próprias. A 31 de Dezembro, ao bater da meia-noite, os computadores deixam de reconhecer a linguagem binária e o mundo (em letra pequena) colapsa.

2000
Miguel Pereira, o primeiro coreógrafo pós-apocalíptico da (His)tória, cria Antonio Miguel, homenageando Hesíodo, passando por cima de Heródoto, e perpetuando o Fim para lá da sua morte anunciada.

2001
Os belgas 2 Many Djs/Soulwax vaticinam que a música pop perfeita será aquela que conseguir juntar os melhores truques de todas as melhores músicas pop da História, um frankenstein meta-referencial a que chamam Pop will eat itself. A arte, como sempre fez, vê e copia. Meses depois, as Torres caem (já não há cadeiras) e o Stockhausen aplaude. Miguel Pereira volta a profanar a linearidade temporal e cria Notas para um Espetáculo Invisível.

2002
Cada vez mais arqueológico, a-temporal e incidental, Miguel Pereira esquece-se do relógio no seu laboratório químico, e quando regressa descobre a vacina contra o vírus da animação sócio-cultural. Apresenta a patente sob a forma de espetáculo a que dá o nome de Data/Local. Rogério Nuno Costa assiste duplamente ao espetáculo e aos espetadores; estes, recusando arrancar os óculos 3D que trazem acoplados à retina, caem como tordos das cadeiras. Quando regressa a casa, Rogério ouve os primeiros mashups de Gregg Gillis [aka Girl Talk] e decide que em 2016 irá escrever um texto que é todo ele um mashup de outros textos já escritos, ou por escrever.

2003
O Human Genome Project consegue sequenciar 99% do genoma humano com uma taxa de  precisão de 99.99%. Em jeito de homenagem espiritual a tais empreendimentos, Luís Carolino cria a Teologia da Queda para o Ballet Contemporâneo do Norte.

2005
Arte e Entretenimento já não se distinguem. Miguel Pereira apresenta Corpo de Baile, um espetáculo onde os figurinos são os protagonistas.

2008
Rogério Nuno Costa descobre na Internet que o texto-mashup que ele quer escrever já foi escrito. Começa a Crise.

2009
Slavoj Žižek publica First as tragedy, then as farce. Meses depois, circula na Internet uma lista de inventores que foram mortos pelas suas próprias invenções.

2010
Elisa Worm apresenta 7 Personagens em Hora de Ponta, a sua última peça para o Ballet Contemporâneo do Norte. Um espetáculo onde os figurantes são os protagonistas.

2011
Inspirada pelo revivalismo vintage, Beyoncé lança o single Countdown, onde faz uma revisão académica, em bomba-relógio, de todos os coreógrafos europeus do Antigo Regime, desde o apogeu frenético dos anos 80 à sua derrocada conceptual dez anos depois. É acusada de plágio, mas a Justiça™ já não funciona retroativamente... Susana Otero cria para o Ballet Contemporâneo do Norte a peça A notícia da minha morte foi um exagero.

2012
Joclécio Azevedo cria para o Ballet Contemporâneo do Norte a peça Conspurcados. A Nostalgia™ passa a ser o tema-fetiche de todas as artes e de todos os ofícios. Por tal motivo, o Mundo desiste de acabar.

2014
Os 2 Unlimited regressam após um hiato de 15 anos. Rogério Nuno Costa regressa, com eles, a todos os pesadelos fin-de-siècle, criando para o Ballet Contemporâneo do Norte a peça EURODANCE. É sobre a última vez em que a Europa foi um continente-conceito feliz, ou seja, é sobre o adiamento (nostálgico) do Fim. Outra vez.

2015
O Ballet Contemporâneo do Norte completa 20 anos de existência e não faz nada para comemorar: efémero e efeméride partilham o mesmo radical grego, mas nunca se deram muito bem. A partir de uma fotografia tirada por Edgar Tavares ao espetáculo 7 Personagens em Hora de Ponta, de Elisa Worm, onde dois bailarinos mais ou menos anónimos criam incidentalmente a imagem de uma cadeira, Miguel Pereira começa a criar o espetáculo Repertório para cadeiras, figurantes e figurinos. Rogério Nuno Costa, de visita à sala de ensaios, rouba a matriz que deu origem a este texto, colada em papel de cenário numa das paredes.

2016
Em Abril, poucos dias antes da re-estreia de Repertório para cadeiras, figurantes e figurinos, Rogério Nuno Costa escreve a palavra History no Google e a primeira coisa que aparece é uma música-repertório de uma banda chamada One Direction.

2016
Em Maio, poucos dias após a re-estreia de Repertório para cadeiras, figurantes e figurinos, é publicada numa revista da especialidade a seguinte “crítica” ao espetáculo:

“(...) Repertório... propõe assim revisitar as fórmulas conceptuais criadas nos últimos tempos, mas em avalanche, em zapping cultural, reflexo do novo hedonismo que está hoje ao alcance de todos pela pirataria, pelo plágio e pelas novas tecnologias, que suprimem a agonia da escolha, os constrangimentos da falta de educação e de dinheiro, permitindo assim encontrar e criar em todo o lado, e a todo o momento, objetos de satisfação polimorfos. Esta prodigalidade cultural funciona como sistema imunitário contra todos aqueles que querem pôr em causa a sua legitimidade, expondo flagrantemente a caducidade das propostas de inúmeros artistas contemporâneos convencidos do caráter polémico, rebelde, escandaloso e subversivo das suas obras, sabendo que a cultura dominante tira benefício dessa pretensa provocação artística, transformando-a em nova retórica de Estado e de mercado. Por mais fascinantes que essas obras possam ser, elas só significam nostalgia e amargura. Em Repertório... reconhecemos essa redução do qualitativo ao quantitativo, como se tudo fosse desaguar confusamente à feira de produtos vintage, em segunda mão. A dualidade entre arte e kitsch, estabelecida no modernismo por Greenberg, está aqui desmascarada. Em Repertório..., a arte foi arrebatada pela loja dos trezentos, e as criadas podem finalmente vestir, sem medo, as roupas provocantes e vanguardistas da Senhora... Compreendemos agora como é obsoleta a estética fundada no juízo de valor e na qualidade das obras, assim como o ofício nulo da crítica de arte, alojado num papel puramente promocional. (...) Esta visão das coisas revela-nos, porém, dois conflitos. O primeiro reside no confronto da liberdade de julgar e elaborar critérios de gosto individual face à poderosa solicitação do consumismo e do sistema cultural; ou seja, na melhor das hipóteses, a nossa liberdade está viciada, pois estamos condicionados a fazer o que todos os outros fazem, quer se trate de arte, lazer ou turismo. O segundo nasce desse fosso que, nos regimes democráticos, se interpõe entre a cultura dos peritos e a cultura profana. Esta situação demonstra-nos claramente que, em termos artísticos, o projeto democrático nunca foi levado muito a sério, ou então reverteu-se em paródia de si mesmo. Como pode existir divisão entre alta cultura e cultura profana se o juízo de valor pressupõe o critério de qualidade? Se esse critério não existe, como o afirmam em cacofonia as vanguardas e todas as instituições artísticas, então a muralha entre classes culturais também se torna nula: é tudo pimba! Repertório... revela-nos esse mundo hiperrealista onde a arte perdeu toda a sua significação, sinistro eco no abismo do Real, pesadelo cool, transparente, pop e publicitário. O que nos permite distinguir a alta cultura depende de um mero ato de fé ou superstição. A arte comeu-se a si mesma, e assim morreu envenenada: contemplatio mortis apocalyptica. (...) O que Repertório... nos mostra, em delírio tragicómico e trans-referencial, é esse caminho de escombro e cinza, esse vislumbre de não-caminho, que nos leva aonde nós já estamos: aqui.”



2017
Miguel Pereira, Susana Otero, Joclécio Azevedo e Rogério Nuno Costa conhecem-se pessoalmente durante as comemorações dos 100 Anos do Fim da História. Juntos escrevem um texto-manifesto intitulado “O que é que não está na moda outra vez?”.

2019
A Indústria, cansada de ter que mudar os nomes aos sub-géneros musicais de cariz indie por se tornarem comerciais no espaço de poucas semanas, decide reduzir todas as categorizações a uma só: mashup. Todas as bandas e músicos do mundo deixam definitivamente de editar e passam a remisturar tudo o que já foi produzido. Na Europa, e por decisão parlamentar, todas as companhias passam a ser companhias “de repertório”, ficando assim impedidas de criar peças “novas”.

2024
Uma atualização ao Código do Trabalho inaugura a figura do “artista submergente”, que passa a receber apoios específicos para residências artísticas (entre outros projetos bartlebyanos) a partir do ano seguinte.

2025
Para assinalar os 30 anos de existência, o Ballet Contemporâneo do Norte aloja num website uma timeline a-temporal (e incidental) intitulada: Para uma Historiografia dos Excluídos, dos Invisíveis e dos Silenciados.

2037
A Entidade Reguladora para a Comunicação Social exige que se crie o Prémio para a Melhor Cerimónia de Entrega de Prémios. No ano seguinte, o Comité Olímpico Internacional eleva finalmente a Arte à categoria de modalidade olímpica.

2038
A Sociedade Portuguesa de Autores é comprada pelo Sporting Clube de Portugal.

2064
A França faz-se representar na Bienal de Veneza por uma obra em grande escala pensada por um coletivo de robots.

2065
Morre Nicolas Bourriaud.

2578
Uma entidade nano-tecnológica não-corpórea, mas munida de inteligência natural, passeia-se por uma praia ao pôr-do-sol. Decide parar para apreciar a bela paisagem sideral. Senta-se numa cadeira, observando a sua própria respiração. Ao longe, ouve-se indistintamente os ecos de uma melodia subliminar: “You and me got a whole lot of history, We could be the greatest team that the world has ever seen, You and me got a whole lot of history, So don't let it go, we can make some more, we can live forever.”

Século XXII

Uma epidemia intergalática oblitera todas as manifestações de vida presentes no Cosmos, provocando um novo rasgo incidental na linha espaço/tempo. Desse cataclismo emana uma mensagem em código arcaico que é difundida até ao ano 2016. Essa mensagem diz: LOL.

Rogério Nuno Costa
Abril 2016