1/01/2007

PONTO AMARELO EM FUNDO NEGRO (COM OBSERVADOR) de Andreas Dyrdal



Ao criar uma obra de arte, envolvemo-nos essencialmente com processos que são destilações, complicações e substrações pessoais de contextos mais alargados, próprios de um determinado momento no tempo; ou, sucintamente, decidimos o que incluir ou o que excluir de modo a justificar (para nós próprios) a existência da obra num determinado momento de uma janela temporal pessoal.
Quando a obra é mostrada, encontramo-nos na situação de ser interpretados por indivíduos ou por grupos de pessoas; ser-nos-ão atribuídos significados, opiniões, emoções e formas que não são, necessariamente nossas. Algures entre estes estados (a criação e o consumo) reside, para mim a mudança, a mudança contextual.
O momento de mudança é o que me interessa, o momento em que algo pessoal se transforma em algo público e vice versa; o momento, quando o pessoal ou colectivo, está prestes a surgir em nós, ou a deixar de existir, devido a reorganizações de contexto pessoais ou colectivas .
Quero encontrar essa aresta, essa linha, e/ou esse equilíbrio, e criar, a partir daí, a possibilidade de me envolver com o momento de mudança a partir do interior. Envolver-me com a produção que constantemente pode surgir, e questionar o problema do consumo.
Perguntar o que motiva o quê numa obra?
A pessoa de um intérprete ou o entendimento colectivo?
Onde colocar a linha entre o pessoal e o colectivo?
Entre intérprete e público? Entre a obra e o exterior?
E perguntar o que acontece quando as coisas mudam?, quando a mudança se torna um fim em si mesma e não um resultado da produção.
Andreas Dyrdal
Setembro 2011


Concepção, direção e coreografia | Andreas Dyrdal
Interpretação e criação | Susana Otero, Sara Leite, Rui Marques e Flávio Rodrigues
Texto | Susana Otero, Sara Leite, Rui Marques e Flávio Rodrigues
Desenho de Luz | João Teixeira
Figurinos | Andreas Dyrdal
Design Gráfico | Patricia Costa
Produção BCN

A NOTÍCIA DA MINHA MORTE FOI UM EXAGERO de Susana Otero



A frase, justamente adoptada como título deste primeiro trabalho de longa duração de Susana Otero, foi proferida por um jornalista quando entrevistado após ter sido largamente noticiada a sua morte...
Partindo de textos de José Cardoso Pires, De Profundis - Valsa Lenta, a qual foi escrita depois do seu autor ter sofrido um acidente vascular cerebral que o privou da memória entre outros problemas, e de Fumar ao espelho, um monólogo de caracter autobiográfico, Susana Otero faz um exercício cheio de ironia, reflectindo sobre a vida e a morte – a morte branca como lhe chama José Cardoso Pires, e a outra, bem mais negra e mais abrangente -, e sobre a própria dança contemporânea e o seu poder enquanto arte performativa.
Sempre com um cuidado cheio de ternura pelas «criaturas» que põe em cena, Susana Otero faz apelo a uma empatia e cumplicidade por parte do público; o qual está, face a este espectáculo, como quem se expõe ao sol, gozando o seu calor aprazível ou sofrendo as queimaduras dos seus raios mais fortes.
Em palco dois homens e uma mulher, perdidos como só Godot à espera de si próprio (a referência Beckettiana faz aqui todo o sentido) o espectáculo desenrola-se entre a palavra - esse movimento da voz –, e a dança – essa voz do corpo -, entrelaçando-se, sem nunca se atropelarem nem invadirem, com um à vontade alheio a quaisquer dogmas de cruzamento interdisciplinar ou a fenómenos de moda nos processos criativos, ilustrando, bem, o melhor de um certo exercício da contemporaneidade.
«E agora José?
...Você marcha José!
José, para onde?»
«José, ao espelho, encolhe os ombros.»

BCN, 2011


Concepção, direcção e coreografia  Susana Otero 
Apoio dramatúrgico Luis Carolino
Interpretação e criação  Sara Leite, Rui Marques e Flávio Rodrigues 
Música Quarteto Dissonante, W. A. Mozart
Desenho de luz  João teixeira
Figurinos Susana Otero /Luis Carolino
Design Gráfico  Patricia Costa
Produção BCN

CHE DIAVOLO FATE? de Luís Carolino


Tendo como matéria de trabalho o universo do espectáculo de ópera oitocentista, Che Diavolo Fate? desenvolve-se à volta de tudo aquilo que faz com que a paixão pela ópera enquanto género artístico se mantenha e perdure: um sentir que ultrapassa toda a lógica; um excesso que nunca é suficiente; uma loucura trágica e uma raciocínio dramático que, sim, as mais das vezes não fazem sentido, mas que são irresistíveis.

Um tributo, também, à voz humana enquanto instrumento, quase um fetiche, que sempre me fascinou.
Luís Carolino, 2009

Ficha Artística:

Criação, Direcção e Composição Coreográfica: Luís Carolino
Música: La Traviata, de Guiseppe Verdi (excertos)
Banda Sonora e Sonoplastia: Luís Carolino
Criação e interpretação: Susana Otero, Rui Marques, Sara Costa Leite e Flávio Rodrigues
Figurinos: Luís Carolino
Desenho de Luzes: João Teixeira
Execução de figurinos: Ana e Rosa Almeida
Canto e apoio vocal: Pedro Teles
Carpintaria: Ricardo Santos
Design Gráfico e fotografia: Patricia Costa

NOCTURNO de Luís Carolino

 


Uma mulher da vida, um homem solitário e uma falsa suicida habitam um espaço vazio.
Nocturno assume-se como uma visita à vida destas três personagens guiada pela própria Morte, a quarta personagem em cena, que nos fala a todos na primeira pessoa; fala-nos de si, do seu «trabalho», e de como nos vê. Um olhar muito próprio, implacável, terrível, mas, ao mesmo tempo, quase maternal: uma reflexão sobre esse incrível e improvável grão de tempo que é a nossa vida, o tudo-nada durante o qual somos.
Nocturno é uma incursão no nosso lado mais escuro, não necessariamente o nosso lado mais negativo, apenas o mais privado e secreto; o lugar de todos os medos e todas as ternuras, o reino da sensibilidade, da intimidade; o sítio onde nos encontramos com nós próprios.
Uma certa e solitária melancolia encontra-se com o mal de vivre contemporâneo deste nosso mundo que parece ter perdido o pé.
Isto assusta-nos, muito, mas é preciso não ter medo.

Luís Carolino, Maio 2008